ANÁLISE DE VIOLETA - ALICE LOBO PAES
1ª Parte (1920–1940)
Que delícia de livro! A leitura flui com grande facilidade — li a primeira parte em um único dia. Talvez isso se deva ao fato de Isabel Allende ter escolhido a narrativa epistolar, por meio das cartas que Violeta escreve ao neto Camilo, o que torna a experiência íntima e muito agradável.
A personagem principal, a pequena Violeta, é complexa e fascinante. Última filha após uma sequência de meninos, é extremamente mimada pelos pais, tias e irmãos, tornando-se uma criança geniosa, birrenta e sem limites. A vida em uma casa grande, com empregados, fartura e muitas facilidades também contribui para que ela não desenvolva outros modos de ser.
Sua transformação começa com a chegada da preceptora inglesa, Miss Taylor, encarregada de “dar um jeito” na menina. Violeta logo percebe que seus achaques não surtem efeito e que a firmeza da preceptora lhe traz uma sensação inesperada de segurança. Além disso, Miss Taylor lhe abre novos horizontes de conhecimento, lugares, ideias e conceitos.
Desde cedo, Violeta revela uma enorme capacidade de observação e de adaptação — duas características marcantes ao longo de sua vida. Ela aceita as pessoas como são e se ajusta às circunstâncias que os percalços da existência lhe apresentam, sempre descrevendo suas percepções sem julgamentos. Nota o encantamento do irmão pela preceptora, intui que não será correspondido e relata o distanciamento que sente da mãe sem jamais recriminá-la. Encontra acolhimento nas tias, que assumem papel importante em sua educação. Aproxima-se do pai quando percebe que algo não vai bem, mesmo sem ter acesso à verdade sobre a grave crise financeira que a família enfrenta em razão do colapso de 1929. É ela quem encontra o pai, na biblioteca, após ele tirar a própria vida ao perder tudo — episódio que marca profundamente sua trajetória.
A partir desse acontecimento, sua vida passa por nova reviravolta: a família é despejada, a mãe entra em profunda depressão e todos se mudam para uma região remota, completamente diferente do que Violeta conhecia.
Encanta-me a força e a resiliência da protagonista, que rapidamente aprende e se adapta ao novo modo de vida, abraçando a família que os acolhe como se fosse sua própria. Ela assume tarefas, reinventa-se e enfrenta as diferenças culturais e sociais com naturalidade.
A narradora descreve com sensibilidade a realidade social e econômica desse país latino-americano no início do século XX. Através do olhar da jovem Violeta, Allende ilumina temas como machismo, distinções na criação de meninos e meninas, expectativas sociais e episódios históricos marcantes.
Uma passagem discreta, mas que me chamou atenção, ocorre quando Violeta, já adolescente, recusa estudar em uma escola tradicional de missionários, afirmando que aprendia muito mais ali onde estava: “Aqui aprendo mais do que em qualquer colégio — afirmei com tal firmeza que acreditaram. O tempo me deu razão.” (p. 78). E de fato aprendeu: cultivo, trato com animais, preparo de conservas, saberes ancestrais das curandeiras, natação, equitação — conhecimentos essenciais para sua sobrevivência. Essa passagem me fez pensar nas reflexões de Ailton Krenak sobre a relevância dos saberes ancestrais e sobre o caráter vivo do planeta, continuamente mutilado por nossas ações.
Em agosto, li dois livros que dialogaram com esse tema: A ilha das árvores perdidas, de Elif Shafak, narrado por uma figueira transplantada do Chipre para a Inglaterra; e Se adaptar, de Clara Dupont-Monod (And the Stones Cry Out), narrado pelas pedras que circundam a casa de uma família. A princípio estranhei tais escolhas narrativas, mas depois compreendi nelas um sinal de mudança de sensibilidade: autores modernos têm recorrido a elementos naturais para construir novos modos de dizer e sentir o mundo. Recomendo ambos.
2ª Parte (1940–1960)
A leitura continua envolvente e fluida.
Agora jovem adulta, Violeta demonstra ser uma mulher de fibra, muito à frente de seu tempo. Determinada e impulsiva, decide seus próprios caminhos apesar das convenções sociais destinadas às mulheres da época. Sua independência psicológica e financeira a permite viver duas experiências infelizmente comuns: um casamento sem amor e um relacionamento extraconjugal abusivo — ambos superados com coragem, apesar das pressões da família e da sociedade.
Nesta parte, Allende aborda temas sempre atuais. Entre eles, destaco os relacionamentos abusivos, cuja gravidade tem sido evidenciada pelas consequências sociais que observamos hoje, especialmente no Brasil, onde muitos desses vínculos acabam em feminicídio. A autora descreve de forma precisa e sensível como esse tipo de relação se instala: um processo gradual de violência crescente, no qual a mulher é levada a buscar justificativas e a assumir culpas que não são suas.
3ª Parte (1960–1983)
Apaixonante. Emocionante. Cativante.
Nesta etapa, a protagonista vive uma sequência intensa de emoções. Em meio ao turbilhão político — ascensão da esquerda, golpe militar e repressão feroz —, Violeta enfrenta suas próprias batalhas como mãe: acompanha, com sofrimento, os caminhos desesperados da filha Nieves, entre vício e prostituição, e o exílio do filho Juan Martín, perseguido por sua ideologia. São anos de perdas, reencontros e, sobretudo, do nascimento do grande amor de sua vida: o neto Camilo, destinatário das cartas que constituem o romance.
Confesso que chorei. As passagens sobre a velhice e a perda me remeteram aos últimos anos de vida de meu pai, acometido pelo Alzheimer, quando o perdíamos um pouco a cada dia. Também me evocaram memórias da minha infância, quando voltamos ao Brasil em 1971, em plena ditadura militar: meu tio, professor da USP, levado para interrogatório; meu irmão convocado a servir o Exército; silêncios impostos dentro de casa; rumores de desaparecimentos; minha mãe queimando um pôster de Che Guevara trazido dos EUA por minha irmã... Foi uma leitura carregada de emoção — e, apesar de tudo, de esperança.
4ª Parte (1983–2020)
O final é de grande beleza. A forma como a narradora descreve os últimos anos de Violeta me deixou o dia inteiro com a sensação de que precisamos cultivar a vida, valorizar o presente e acolher a morte com serenidade.
Nessa fase, Allende nos convida a refletir sobre o envelhecimento e sobre como Violeta subverte as expectativas sociais: ela recusa limitações impostas pela idade cronológica e continua vivendo intensamente — amando, criando, convivendo, fazendo planos.
A sociedade contemporânea atravessa uma transformação demográfica significativa: as pessoas nunca viveram tanto. Avanços na medicina, tecnologia e padrões de vida ampliaram a longevidade e resultaram no crescimento acelerado da população idosa — tema, inclusive, da redação do ENEM 2025. Essa transição traz desafios, mas também oportunidades de repensar o papel social dos mais velhos.
Tradicionalmente, os idosos eram vistos como guardiões da memória e da experiência. Contudo, em economias aceleradas, que valorizam produtividade e inovação, muitos passam a ser percebidos como “menos úteis”. A teoria do valor de Karl Marx ajuda a explicar esse fenômeno: no capitalismo, o valor social tende a vincular-se à capacidade produtiva. Assim, idosos fora da força de trabalho podem ser injustamente subestimados.
Felizmente, esse olhar começa a mudar. Muitos idosos se reinventam, aprendem novas tecnologias, iniciam negócios, participam de ações comunitárias e praticam aprendizagem ao longo da vida. Esses novos papéis desafiam estereótipos e mostram que envelhecer não significa declínio.
Reconhecer esse potencial é crucial. Os idosos contribuem de inúmeras formas: cuidando de netos, preservando tradições, oferecendo orientação e apoio emocional. Em uma sociedade que envelhece rapidamente, valorizá-los é condição para construir um futuro mais humano.
No início de novembro, li Thursday Murder Club (O Clube dos Assassinatos de Quinta-feira), de Richard Osman — um livro leve e delicioso. A série destaca idosos inteligentes, curiosos e resilientes, que resolvem crimes com humor e humanidade, subvertendo estereótipos.
Outras obras seguem essa linha:
Literatura
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Elizabeth Is Missing (Emma Healey, 2014) — mistério narrado por uma mulher com perda de memória.
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Um Homem Chamado Ove (Fredrik Backman, 2012) — sobre um viúvo rabugento que reencontra o sentido da vida.
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O Centenário que Fugiu pela Janela e Desapareceu (Jonas Jonasson, 2009) — aventura divertida com um protagonista de 100 anos.
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E se eu morrer amanhã? (Felipa Fonseca Silva, 2023) — celebra reinvenção, liberdade e sexualidade na terceira idade.
Cinema
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O Exótico Hotel Marigold (2011) — reinvenção e troca cultural na aposentadoria.
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Um Senhor Estagiário (2015) — colaboração intergeracional.
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Amor (2012) — envelhecimento tratado com profundidade e delicadeza.
Televisão
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Grace and Frankie (Netflix, 2015–2022) — humor e empoderamento feminino na maturidade.
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Only Murders in the Building (Hulu, 2021– ) — criatividade e amizade entre adultos mais velhos.
Essas obras ajudam a desconstruir preconceitos e mostram idosos como protagonistas plenos, cheios de vida e possibilidades. São narrativas que inspiram e contribuem para combater o etarismo, promovendo respeito e integração entre gerações.
(Texto revisto por Ezequiel Theodoro da Silva)



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