CRÔNICA 01- O LIXO
CRÔNICA - 01 (>>>> Vejam possibilidades de reflexão ao final - sugiro escrever respostas, de todas ou duas ao menos)
👀Período desta atividade: de 08 de maio a 25 de maio
O lixo
Luís Fernando Veríssimo
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612.
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em
seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às
vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?
VERÍSSIMO, Luís Fernando. O analista de Bagé. RJ: Objetiva. 2002.
TEMAS PARA PENSAR, COMENTAR/REAGIR E PROSEAR...
> A crônica propõe uma reflexão profunda sobre como o lixo que produzimos revela detalhes íntimos da nossa vida pessoal, nossas escolhas, nossos hábitos e até nossos segredos. Podemos discutir: em que medida aquilo que descartamos também nos define?
> "O Lixo" levanta uma questão curiosa: nos preocupamos muito com a imagem que mostramos publicamente, mas esquecemos da história que deixamos para trás sem perceber — como o nosso lixo. Como lidamos com a exposição involuntária da nossa vida privada?
> A crônica permite discutir a relação entre consumo e construção da identidade: o que consumimos (e descartamos) revela nossas aspirações, nossos medos, nossas vaidades. Que retrato da sociedade atual podemos extrair dos resíduos que produzimos?
> Veríssimo brinca com a ideia de que alguém examinando nosso lixo poderia formar juízos — corretos ou distorcidos — sobre quem somos. Isso traz à tona a reflexão: como o olhar dos outros, mesmo sobre fragmentos da nossa vida, influencia nossa maneira de ser e agir?
> Na crônica, o lixo aparece como uma metáfora para aquilo que tentamos ocultar, mas que inevitavelmente vem à tona. Podemos refletir: o que tentamos jogar "fora" da nossa vida emocional ou social? Até que ponto conseguimos realmente esconder nossos traços mais profundos?
> Reflita sobre os possíveis referenciais do texto de Veríssimo e busque paralelismo com este poema premiado de Cecília Meireles (abaixo).
"Retrato" – Cecília Meireles
Eu não tinha este rosto de hoje,assim calmo, assim triste, assim magro,nem estes olhos tão vazios,nem o lábio amargo.Eu não tinha estas mãos sem força,tão paradas e frias e mortas;eu não tinha este coraçãoque nem se mostra.Eu não dei por esta mudança,tão simples, tão certa, tão fácil:— Em que espelho ficou perdidaa minha face?


Comentários
Já o poema de Cecília Meireles me transmitiu de imediato a melancolia do eu poético. Me fala de transformações que vão além das transformações físicas observadas no retrato. Deixa-me com a sensação de solidão quando ela cita seu coração fechado. E da angústia de não se reconhecer mais.
O único paralelo que consigo pensar entre os dois textos, além da solidão e melancolia dos personagens, é com relação à ideia de IMAGEM. O quanto o lixo reflete muito do que somos e o quanto o retrato reflete a aparência imediata, sem, no entanto, nos mostrar por dentro.
Li o post da Flavia Boavista que menciona as mídias sociais e pensei: é verdade! Estamos vivendo tempos em que as pessoas postam fotografias de momentos encenados, utilizando-se de filtros, descartando o que não desejam mostrar. Talvez um retrato pintado ou tirado num momento verdadeiro tenha o poder de fazer as pessoas refletirem onde foram parar seus “eus” verdadeiros.
Gostei da analise psicológica e social dos personagens através do que descartam.
Em relação ao poema de Cecília, é a própria vida em relação ao passar dos anos e uma análise de si mesma .
Superficialmente o texto do Veríssimo me remeteu em contraponto as formas contemporâneas de se relacionar , que hoje são sem atenção nem profundidade para conhecer uma pessoa. Completamente diferente da ideia de passar um tempo observando o lixo de alguém que supostamente poderia ser interessante. Hoje os encontros me dão uma sensação de excesso de egos e pouca disposição para um flerte demorado, com longa observação e paciência para se aproximar. O digital imprimiu velocidade e uma auto -importância exacerba.
Achei bastante criativa a ideia de pessoas que “fuçavam “ o lixo uma da outra com o desejo de saber mais. Quase um stalker dos velhos tempos. Uma brincadeira com um tipo de romantismo que poderia ser polêmico mas é acima de qualquer coisa bastante original.
Muito criativo e divertido.
Refletindo a luz da proposta, penso que o segundo texto nos faz perceber que viver uma vida desatento do que realmente nos importa, de repente pode nos surpreender logo adiante com alguém que no processo de esquecer de si mesmo podemos nos tornar. Ao meu ver o texto sugere que o tempo passou e a pessoa não se reconhece mais nem fisicamente e nem do ponto de vista do ser humano que passou a ser.
Onde se perdeu?
Eu acredito que a face que a pessoa não reconhece mais foi perdida com os sonhos, com as esperanças e desejos abandonados, talvez como um lixo emocional não descartado que nossas almas aflitas as vezes insiste em seguir carregando.
Brincadeiras a parte, o que mais me pegou na leitura e releitura foi sobre o lixo tornar o particular público. Pensamos que jogar fora algo significa que nós simplesmente nos livramos de algo... mas o lixo não desaparece, ele vai para algum lugar. Acho que se pensássemos mais nisso talvez seríamos mais cuidadosos em não fazer tanto lixo em nossas vidas.
Por outro lado, algo muito legal dessa crônica é que você dificilmente fica 'perdido' sobre quem está falando o quê, o que é surpreendente considerando que não temos nome dos personagens e não temos nenhum indicador adicional de quem está falando. Eu já li crônicas que são uma sequência da palavras assim, e quando fica mal-escrito eu as vezes me perco e tenho que reler as ultimas partes para lembrar quem está falando o quê. O fato de isso nunca ter me incomodado quando eu li mostra o quão bem o Veríssimo considerou esse fato quando escreveu a crônica.
Por último... essa crônica foi escrita em 2002, mas sinceramente tirando as cartas e o telegrama dava para imaginar ele ter sido escrito facilmente em um período mais recente: na verdade a primeira impressão que eu tive era que era um conto do tempo da pandemia! Gostei muito!
Descartado, porém querido ou dolorido, esquecido, acumulado.
Onde nossas particularidades são entregues ao olhar do outro (vizinho, médico, amigo, psicólogo)