LEITURA DE ÚLTIMO MINUTO - UM MINICONTO

 


Boletim de Carnaval

- Fui estuprada, vó. Três animais!

- E tu esperava o quê? Um noivo?




Luiz Norberto Guedes. IN: Os cem menores contos brasileiros do século. Organizado por Marcelino Freire. São Paulo: Ateliê Editorial, 2004, p. 52. Coleção 5 – minicontos.

 

 Três situações para reflexão e  produção de comentários

  1. A naturalização da violência
    Como o comentário da avó revela uma cultura em que o estupro é tratado com cinismo ou inevitabilidade? Que paralelos encontramos com a realidade contemporânea?
  2. O silêncio e a frieza familiar
     O papel da avó aqui pode simbolizar a omissão de gerações mais velhas diante das dores das mais jovens. Até que ponto o núcleo familiar, em vez de amparar, reforça o trauma?
  3. Ironia como recurso narrativo
     O efeito de choque do miniconto se dá pela ironia cruel da resposta. De que maneira a literatura pode usar a ironia para denunciar a violência, ao mesmo tempo em que incomoda o leitor e o força a refletir?

 

Comentários

Alice disse…
Mini contos tendem a ser concisos e densos em sua mensagem. Este em questão me deixou incomodada. Talvez seja como os piores venenos que se encontram nos menores frascos; contos intensos vem em formato diminuto.
Banalização da violência sexual é assunto relevante e muito atual. A violência contra a mulher no Brasil tem sido recorrente; cada vez mais presente nos telejornais e essa recorrência entorpece nossos sentidos, pois a percepção da violência fica alterada por causa do efeito de naturalização da violência como algo cotidiano. Há uma dessensibilização da sociedade para atos de violência. Este mini conto retrata tal dessensibilização através da fala da avó: curta, seca, cheia de significados.
O fato de ser uma fala curta, pontual, me deu a sensação de expressar o óbvio, como se o que a neta estava a relatar não fosse nada mais do que o esperado, ou seja, a inevitabilidade. A fala seca, isenta de empatia, enfatiza a omissão das gerações passadas em amenizar a dor da juventude. A isenção de empatia, imagino, advém da própria história de vida da avó que talvez tenha tido alguma experiência de violência contra ela na infância/juventude e que não foi resolvida, fazendo com que ela venha a agir como se agora seja a vez da neta conviver com isso. A fala é cheia de significados pois em poucas palavras a fala da avó, em suas entrelinhas, escancara de forma irônica alguns problemas sociais brasileiros: o problema da banalização da violência sexual; violência contra a mulher, que é perpetuada há muitas gerações; a imagem do carnaval como uma época permissiva; o abismo da falta de diálogo entre gerações; entre outros.
Anônimo disse…
uma boa transa é um estupro consentido, este é o pacto do amor e sexo.
Anônimo disse…
Essa é a eterna lei tácita da volúpia entre os dois amantes.
Anônimo disse…
Esse é o Elixir do Amor !!!
Flavia Boavista disse…
Diálogo curto porém chocante e brutal. Ele sintetiza, em poucas linhas, uma crítica profunda à banalização da violência sexual e à naturalização do machismo estrutural, especialmente em contextos de festas como o Carnaval, onde o corpo feminino é frequentemente hipersexualizado e objetificado. "- Fui estuprada, vó. Três animais!"
Essa fala é direta e dolorosa. Denuncia um estupro coletivo, e o termo "animais" revela o grau de desumanização dos agressores, mas também carrega um tom de desespero da vítima, tentando nomear o inominável.
"- E tu esperava o quê? Um noivo?"
A resposta da avó é muito cruel e resignada. Carrega uma ironia seca, que escancara a cultura do estupro e a culpabilização da vítima. A naturalização do abuso aparece como uma defesa enraizada em gerações anteriores, que cresceram sob uma sociedade patriarcal e repressiva. O impacto desse diálogo vem justamente do contraste entre a gravidade da violência e a resposta fria e conformada. Caio Fernando Abreu, com sua escrita cortante, nos obriga a encarar de frente o machismo velado — ou explícito — que permeia várias camadas da sociedade.
O título "Boletim de Carnaval" sugere uma leitura ainda mais amarga: o Carnaval, tradicionalmente associado à liberdade e à alegria, é também palco de muitos abusos que são ignorados ou minimizados.
Nesse sentido, o texto critica não só os agressores, mas toda uma estrutura social que tolera, justifica ou silencia a violência contra a mulher.
Kiyu disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Kiyu disse…
Esse miniconto me parece uma piada sem graça e de mau gosto, que só poderia ter sido escrita por um homem. Eu sei que existem mulheres de todos os tipos e que pode haver uma que fale sobre seu próprio estupro de uma maneira que para mim pareceu displicente. E que exista uma avó sem nenhuma empatia pela neta que sofreu tamanha violência. Não podemos deixar que isso se torne normal. A violência nasce do medo de perder o poder, da raiva e do descontrole e a banalização da brutalidade reflete uma sociedade disfuncional. Em algumas culturas o sexo é um caminho para a espiritualidade e o prazer é uma forma de autoconhecimento. Há muitas formas de atingir o êxtase, mas o respeito é fundamental. O sexo é sagrado e não é não.
Kiyu disse…
Apaguei meu comentário, pois havia colocado a expressão não é não entre aspas e eu não queria deixar nenhuma dúvida à respeito.

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