PERSONAGEM - O EIXO VIVO DA NARRATIVA
"Personagens são o núcleo de
qualquer ficção. Se você os cria bem, eles criarão a história por você." - Scott
Fitzgerald
Em termos literários, personagem é o ser — humano, animal ou mesmo abstrato — criado pelo autor para viver a ação da narrativa. É por meio das personagens que a história acontece, os conflitos se desenrolam e as ideias do texto ganham corpo.
Podemos pensar na personagem como o eixo vivo da narrativa, porque:
- Constrói o enredo
– Suas ações, decisões e conflitos impulsionam a trama. Sem personagens, o
enredo não se move; ele é apenas um cenário vazio.
- Encena temas e
ideias – As personagens incorporam valores, dilemas e contradições que
o autor deseja explorar. Muitas vezes, elas representam tipos sociais,
posições ideológicas ou arquétipos humanos.
- Produz
identificação e empatia – Para o leitor, a personagem é o elo afetivo
com a história. É por meio dela que sentimos emoção, curiosidade ou
repulsa, que rimos ou nos indignamos.
- Cria tensão e
transformação – Uma boa personagem não é estática: muda, amadurece ou
se degrada ao longo da narrativa, e essa transformação mantém o interesse
do leitor.
- Oferece múltiplos
pontos de vista – Quando a narrativa apresenta mais de uma personagem
central, é possível mostrar ângulos diferentes de um mesmo conflito,
enriquecendo a experiência de leitura.
..... sem personagens não há experiência narrativa plena, pois são elas que transformam a ideia do autor em vivência para o leitor. O interesse e o impacto de um romance dependem, em grande parte, de quão bem construídas, coerentes e cativantes são as suas personagens.
- Exemplo: Bentinho em Dom Casmurro (Machado de Assis), cuja trajetória e visão subjetiva moldam toda a narrativa.
2. Antagonista
Oponente direto do protagonista, é quem cria obstáculos ou representa a força contrária aos objetivos deste. Nem sempre é “vilão” no sentido moral, mas sua função é gerar conflito.
- Exemplo: Capitu, na perspectiva de Bentinho, cumpre o papel de antagonista, pois encarna a dúvida e o possível motivo de seu sofrimento.
3. Personagem secundária
Tem importância menor, mas contribui para desenvolver o enredo ou
revelar aspectos do protagonista.
- Exemplo: Escobar em Dom Casmurro, que, embora não seja o centro da trama, é decisivo na suspeita de Bentinho sobre Capitu.
4. Personagem figurante
Aparece pontualmente, sem grande desenvolvimento psicológico, mas ajuda
a compor o cenário e dar verossimilhança à narrativa.
- Exemplo: Os vizinhos de Bentinho e Capitu, que surgem apenas para situar o ambiente.
5. Personagem plana
Apresenta um único traço de personalidade predominante, sem
transformação significativa ao longo da narrativa.
- Exemplo: Policarpo Quaresma (no início do romance de Lima Barreto), sempre patriótico e idealista, sem matizes complexos até o avanço da trama.
6. Personagem redonda
Complexa, multifacetada e sujeita a mudanças psicológicas ou
comportamentais ao longo da história.
- Exemplo: Paulo Honório em São Bernardo (Graciliano Ramos), que passa de homem rústico e ambicioso a alguém corroído por remorso.
7. Personagem-tipo
Representa um grupo social, profissão, vício ou virtude de forma
estereotipada.
- Exemplo: O
malandro Leonardo em Memórias de um Sargento de Milícias
(Manuel Antônio de Almeida), símbolo do espírito boêmio e indisciplinado
carioca do século XIX.
Don Quixote - um dos personagens
mais complexos da Literatura
A complexidade de Dom Quixote, protagonista do romance Dom Quixote
de La Mancha (Miguel de Cervantes, 1605 e 1615), costuma ser atribuída a um
conjunto de razões que o colocam acima do estereótipo de “louco engraçado” e o
transformam numa das figuras mais ricas e multifacetadas da literatura. Entre
elas:
- Ambiguidade entre loucura e lucidezDom Quixote vive num estado de oscilação constante: ora se mostra completamente alheio à realidade, confundindo moinhos com gigantes, ora revela reflexões profundas sobre justiça, honra e liberdade, com uma lucidez que surpreende o leitor.
- Conflito entre ideal e realidadeEle encarna o choque entre o mundo idealizado dos romances de cavalaria e a dureza prática da Espanha do século XVII. Esse embate gera situações cômicas, mas também melancólicas e críticas, pois expõe a distância entre os valores sonhados e a vida real.
- Evolução psicológica ao longo da narrativaAo contrário de personagens estáticos, Quixote muda com o tempo. No segundo volume, percebe-se um amadurecimento e até momentos de autocrítica, aproximando-o da consciência de sua própria condição.
- Riqueza simbólicaEle é simultaneamente sátira e elogio do idealismo humano: ridiculariza o excesso de fantasias, mas também exalta a capacidade de sonhar e lutar por um código moral, mesmo quando este parece inviável.
- Capacidade de gerar múltiplas interpretaçõesAo longo dos séculos, Quixote foi lido como símbolo da resistência contra o conformismo, como alegoria da arte, como crítica social e até como paradigma do ser humano que recusa aceitar a realidade sem questioná-la.
Análise de Personagem
Ezequiel Beiriz em “Um músico extraordinário” – Lima Barreto
No conto Um músico extraordinário, de Lima Barreto, Ezequiel
Beiriz surge como protagonista absoluto, conduzindo toda a ação e despertando
no leitor um misto de curiosidade e reflexão. Desde os tempos de colégio,
acompanhamos sua trajetória pelas lentes do narrador Mascarenhas, que recorda o
menino franzino, reservado e apaixonado pela leitura — especialmente pelas
aventuras de Júlio Verne — e contrasta essa imagem com a do homem que
reencontra, anos depois, num bonde do Rio de Janeiro. Esse reencontro serve de
fio condutor para revelar uma vida marcada por constantes mudanças de rumo, por
uma busca incessante de um ideal artístico grandioso e, ao mesmo tempo, por uma
incapacidade de concretizá-lo.
Ezequiel é uma personagem redonda, que se transforma ao longo da narrativa, mas cuja mudança não se traduz em amadurecimento efetivo. Suas alterações de comportamento e de interesse revelam mais uma sucessão de tentativas frustradas do que uma evolução sólida. O traço dominante de sua personalidade é a inconstância, associada a um idealismo disperso: abandona cursos, profissões e projetos com a mesma rapidez com que os inicia, sempre à procura de uma vocação que lhe traga realização plena.
Apesar disso, sua construção também carrega traços de um personagem-tipo: o artista boêmio, sonhador e refratário a regras ou instituições, vivendo na expectativa do “grande feito” que, na prática, nunca se concretiza. Mais do que enfrentar obstáculos externos, Ezequiel torna-se o seu próprio antagonista, criando barreiras internas que o impedem de atingir os objetivos que almeja.
Essa combinação de idealismo e autossabotagem provoca no leitor sentimentos ambíguos. Há empatia pela figura imaginativa e sensível da juventude, mas também ironia e frustração diante do adulto disperso e presunçoso que não consegue, ou não quer, firmar-se em um caminho. Ezequiel Beiriz, assim, cumpre um papel crítico: espelha vidas marcadas por talentos desperdiçados e evidencia o abismo que pode existir entre sonhar e realizar, deixando no ar a pergunta incômoda sobre até que ponto somos cúmplices de nossas próprias derrotas.



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