O OLHAR QUE NOS LÊ - EZEQUIEL THEODORO DA SILVA


O olhar que nos lê: vigilância, vestígios e a construção da identidade na era digita
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Ezequiel Theodoro da Silva

Nas crônicas O Lixo, de Luis Fernando Veríssimo, Continuidade dos Parques, de Julio Cortázar, e O Gato, de Fernando Sabino, o tema da vigilância emerge como um fio invisível que conecta ficção, cotidiano e crítica social. Esses textos, cada um à sua maneira, nos mostram como somos permanentemente lidos e interpretados — pelos outros, pela sociedade, pela tecnologia — e até por nós mesmos. O humor e o absurdo dessas narrativas reforçam a ideia de que, mesmo nos instantes mais íntimos, há sempre um olhar (humano ou não) que nos vigia e nos molda.

Michel Foucault, em Vigiar e Punir (1975), já nos alertava para o caráter disciplinador do olhar social: "O olhar é uma espécie de cerco onde o poder se exerce." (FOUCAULT, 1975, p. 212). O panóptico — a prisão circular onde o vigilante tudo vê — é hoje reatualizado nas redes sociais e nos sistemas digitais que registram nossos cliques, curtidas e rastros. Não é mais necessário um vigia físico: o próprio algoritmo cumpre essa função, decifrando nossas preferências e medos.

Em O Lixo, o condômino vasculha o lixo da vizinha em busca de fragmentos que revelem segredos ocultos. Esse gesto, aparentemente inofensivo, simboliza o desejo de controle e a curiosidade invasiva que encontramos hoje na internet: "Vivemos o paradoxo de nos expormos voluntariamente e, ao mesmo tempo, temermos o olhar alheio", diria Foucault. No conto de Cortázar, a ficção devora a realidade, e o leitor se torna personagem da própria história que lia. Aqui, a vigilância é internalizada: somos ao mesmo tempo observadores e observados.

Sabino, com humor, escancara o desconforto de ser lido pelo outro: "o gato", símbolo de um olhar misterioso e constante, nos remete àquele que nos vigia em silêncio, pronto para nos julgar. Esse olhar molda nossa identidade, impõe regras, e — como diria Foucault — disciplina o corpo e a alma.

Na era digital, cada curtida, cada busca e cada passo virtual deixam vestígios que permitem ao algoritmo nos reconstruir em detalhes, criando perfis que direcionam anúncios, comportamentos e escolhas. Como leitores, somos também lidos; como navegadores, somos constantemente navegados.

Assim, a tríade dessas crônicas nos revela que, mais do que nunca, precisamos cultivar a consciência de nossos vestígios — no mundo físico e no digital. "A visibilidade é uma armadilha", dizia Foucault. O desafio é retomar o controle de nossos rastros e proteger o espaço íntimo daquilo que, no final das contas, nos faz humanos: o direito de sermos múltiplos, contraditórios e, acima de tudo, livres.

Bibliografia mínima

 FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: História da Violência nas Prisões. Petrópolis: Vozes, 1975.

 FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

HAN, Byung-Chul. A Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes, 2017.

BAUMAN, Zygmunt. Vigilância Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

KAPLAN, Andreas. Digital Transformation and Social Media: Business and Society in the Age of Connectivity. Berlin: Springer, 2022.

DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Editora 34, 1992.


Guia Prático para evitar as malhas dos algoritmos na internet

Este guia foi elaborado para ajudar você a navegar na internet com mais consciência, evitando a influência excessiva dos algoritmos que moldam o que vemos, o que compramos e até o que pensamos. Siga estas cinco sugestões sólidas para manter sua privacidade e sua autonomia digital.

1. Use ferramentas de privacidade e navegadores alternativos

Evite o uso irrestrito de grandes plataformas que rastreiam cada clique e utilize navegadores com bloqueadores de rastreadores, como o Firefox (com o recurso “Facebook Container”) ou o Brave. Considere motores de busca alternativos como DuckDuckGo, que não rastreiam o histórico de navegação, ou Startpage, que utiliza os resultados do Google mas sem rastrear o usuário.

2. Revise suas permissões e configurações de aplicativos

Em redes sociais e aplicativos, acesse as configurações de privacidade e desative o monitoramento de atividades fora da plataforma (o chamado “Off-Facebook Activity”, por exemplo). Limite a coleta de dados apenas ao essencial e negue permissões desnecessárias como acesso à localização, contatos ou câmera, sempre que possível.

3. Diversifique suas fontes de informação e consumo de conteúdo

Não confie apenas nas recomendações automáticas de plataformas de vídeo, notícias ou música. Busque ativamente diferentes veículos de comunicação e autores para evitar bolhas de informação que reforçam um único ponto de vista. Isso amplia seus horizontes e impede que o algoritmo dite seu consumo de conteúdo.

4. Gerencie o tempo de uso e pratique o “tempo offline”

Defina horários e momentos para ficar offline e reconectar-se com a vida real, sem as interferências constantes das notificações. Use aplicativos de controle de tempo de tela para monitorar o uso e colocar limites saudáveis. Isso reduz o impacto da personalização agressiva de conteúdo e ajuda a retomar o controle do seu tempo.

5. Pense antes de clicar ou compartilhar

Reflita antes de interagir com anúncios, formulários ou posts virais. Cada clique é um dado a mais para o algoritmo te ler e te moldar. Pergunte-se: “Essa informação é necessária para mim ou para alguém me vender algo?” Evite alimentar algoritmos que transformam suas preferências em produtos.

Seguir essas sugestões não significa desconectar totalmente, mas sim usar a internet de forma mais consciente e autônoma. Assim, você poderá navegar de forma mais livre e crítica, aproveitando as vantagens da tecnologia sem ficar refém de algoritmos.


Comentários

Alice disse…
Obrigada professor, por sintetizar tão bem o fio condutor dos contos lidos e por nos presentear com este Guia Prático para nos protegermos melhor do escrutínio digital.

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