O iNADA, UMAREVOLUÇÃO TECNOLÓGICA
O iNada, uma Revolução Tecnológica
Alberto J. Grimm
Estavam todos eufóricos, mas diante de um grande impasse. O produto era revolucionário, mas havia um enorme problema, não tinha utilidade nenhuma, ou seja, não servia para nada; pelo menos nada que pudessem naquele momento vislumbrar. E o departamento de idéias foi chamado para ver se encontrava alguma utilidade para o objeto, e muitas reuniões e debates depois, nada se conseguiu.
“Isso não pode estar acontecendo”, comentou desolado o pesquisador chefe; “é um produto bonito, perfeito em formato e tamanho; vejam que beleza de desenho, e não serve para nada!”.
“Já sei" disse outro, "o departamento de publicidade pode nos ajudar a encontrar uma solução; eles são criativos, vão achar uma utilidade para isso.”. E todos concordaram. Foram então consultar o departamento, e a resposta foi simples e enfática: “Pode trazer; fabricar pode não ser um problema nosso, mas vender qualquer coisa, isso é!”.
Contente com a possibilidade, a comissão de cientistas ainda duvidou: “Olha que isso não é qualquer coisa, pode ser um desafio até para vocês”. E o chefe da publicidade riu e disse: “Somos movidos à desafios!”, e em seguida lembrou do famoso caso do aparelho de barbear a laser, capaz de remover de vez os pelos de qualquer pessoa. O problema é que sem pelos, não haveria mais a necessidade de o usuário comprar o aparelho, o que o tornaria um objeto descartável, feito para ser usado uma vez apenas, constituindo um grande problema para a empresa. Mas bastou uma abordagem inteligente e foi um sucesso de vendas, que durava até os dias atuais. E eles trouxeram o novo e revolucionário invento. E o chefe dos publicitários foi logo perguntando: “O que ele faz? “. “Nada, ele não faz absolutamente nada!”, disse o cientista chefe. Os publicitários se entreolharam por um instante, e depois de cada um examinar pessoalmente o pequeno acessório, comentaram: “É bonitinho. Mas não faz nada; quer dizer, não serve para nada mesmo? “. “Não”, foi o coro unânime dos cientistas. “Mas, se não serve para nada porque foi criado?”.
Aquela era uma pergunta interessante, uma vez que nenhum dos cientistas sabia responder de forma convincente. E um deles disse: “Foi criado, porque ninguém jamais havia criado antes um utilitário absolutamente sem função nenhuma!”. O chefe dos publicitários sorriu e disse: “Vai ser um sucesso de vendas!”. Os outros não conseguiam acreditar naquilo que acabavam de ouvir. Pensavam consigo mesmos; como uma coisa que não serve para nada pode se tornar um sucesso de vendas? Perguntaram então: “Estamos tão curiosos que, gostaríamos de acompanhar a elaboração da campanha. Podemos?”. “Claro que sim”, disse o outro, “afinal, vamos precisar de mais informações técnicas, sobre essa pequena maravilha capaz de não fazer nada!”.
A confiança do chefe da publicidade convenceu a todos. E no dia e hora marcada para início dos trabalhos, o inventor foi pessoalmente explicar sua criação à equipe publicitária. Ele disse:
“Como podem ver, é um aparelho pequeno, leve, fininho como um cartão de crédito, o que permite guardá-lo com facilidade em qualquer lugar. Mais ainda; é todo revestido de titânio prensado, última palavra em materiais duráveis. Assim, tem um tempo de vida útil estimado em 300 anos. É a prova de água, de fogo, de choques, de quedas, uma vez que não tem nada dentro, e, portanto, nada que possa ser danificado; e não usa bateria. Mas é uma grande descoberta de nossa equipe de inventores, especialmente a cor, que é uma cor inexistente...”. E antes que pudesse concluir, o chefe dos redatores completou: “É por isso que será um sucesso! E mais, ainda não precisa de baterias; perfeito!”. E ele explicou como fariam a abordagem.
“Vamos convencer as pessoas, das vantagens em se possuir um objeto que não serve para nada. Num mundo onde tudo tem uma utilidade, mesmo que não seja uma necessidade, este produto se destaca por não servir para absolutamente nada; é algo portanto, que ninguém ainda possui, diferente de tudo. Todos desejarão um. Depois convenceremos todos que possuir dois é melhor que um, para um caso de eventual perda acidental. Vamos enfatizar na campanha, que tal objeto é uma revolução na conduta do homem desse novo século. Um homem que já possui tudo, e que agora demonstra seu poder de transformação e desapego ao não desejar nada, pois é exatamente o que lhe proporcionará o objeto, nada!”.
Foi um espetacular sucesso, campanha, produto e as vendas. E aquela indústria precisou mesmo criar novas linhas de montagens, para atender os pedidos que não paravam de chegar. Novos modelos foram lançados, novas cores inexistentes, ou até existentes para atender as preferências de alguns grupos, e todos com a mesma característica que ajudou a torná-lo o objeto de desejo mais cobiçado do mundo; isto é, o fato de não servir para absolutamente nada. Passados os anos, o mercado já saturado de tantos objetos de fazer nada, os “iNadas” como foram chamados, o departamento de publicidade é chamado para resolver uma nova questão: Como fazer para manter, ou mesmo incrementar o volume de vendas do produto. Eles sorriram e disseram:
“Isso é muito simples. Agora vamos incrementar qualquer coisa ao aparelho e anunciar que se trata de uma renovação daquilo que já era novo. Por exemplo, vamos acrescentar ao aparelho de fazer nada, botões coloridos que também não fazem nada, e pode ter certeza de uma coisa; o sucesso será maior que o modelo original”.
E foi!
TEMAS PARA REFLEXÃO E ELABORAÇÃO DE COMENTÁRIOS
1. O valor simbólico do consumo na sociedade atual
Reflexão: O conto convida a pensar por que consumimos o que consumimos. Será que escolhemos por necessidade, ou somos guiados pelo desejo de pertencimento e diferenciação? Como os objetos perdem sua função original e passam a valer apenas como símbolos de status, moda ou identidade?
2. A indústria do desejo e a lógica da obsolescência
Reflexão: A publicidade no conto cria não só uma necessidade falsa, mas um desejo sustentado por um vazio. O produto não muda, mas novos acessórios inúteis garantem sua "novidade". Isso remete ao consumismo baseado em modismos e na constante reinvenção do “mesmo”.
3. A crítica ao esvaziamento de sentido na cultura contemporânea
Reflexão: O "iNada" é a metáfora perfeita para questionar os valores e os discursos que circulam hoje: produtos sem utilidade, discursos sem substância, desejos sem consciência. Até que ponto estamos deixando de viver com sentido para apenas possuir e exibir?



Comentários
Nos dias de hoje, o consumismo ganhou uma ferramenta poderosa: as mídias sociais. Este assunto volta na mesma tecla da qual vimos falando: a manipulação dos nossos “desejos” através de informações adquiridas no nosso lixo virtual, nos nossos cliques, pesquisas, visualizações e likes. Os algoritmos dissecam nosso subconsciente e nos bombardeiam com propagandas de produtos que atenderão aos nossos desejos mais profundos e desconhecidos. Me parece até um tema de ficção científica bem brega, mas é real.
O consumismo se alimenta da ilusão de que a felicidade está nos nossos bens materiais, no entanto, a satisfação nunca chega pois há sempre mais um degrau a ser alcançado, sempre o último modelo, a inovação, o status; enfim, a insaciável voracidade de ter é fomentada e estimulada incansavelmente pelos meios de comunicação e, na verdade, retroalimentada pela necessidade de nos sentirmos pertencentes ao grupo onde “todos” possuem os mesmos símbolos de sucesso e status social.
Embora o consumismo gere empregos e faça a roda da economia girar, todo excesso é danoso à sociedade. O desejo descontrolado por adquirir certos bens de consumo, gerado pela exposição e propaganda, enseja inveja, frustração e violência. Além da questão psicológica (constante insatisfação) e social, o consumismo exagerado gera impactos negativos no meio ambiente se pensarmos no descarte excessivo, na escassez de matéria prima e no desperdício.
Como diz o velho ditado , a propaganda é a alma do negócio.
As empresas de publicidade estão cada vez mais sofisticadas, criativas e inteligentes. Os recursos audiovisuais cada vez mais aperfeiçoados através de altas tecnologias. O consumidor é convencido a comprar cada vez mais, por uma questão de status na sociedade ou até para compensar suas carências pessoais.
Através da publicidade, o produto oferecido cria uma situação ilusória, pois sempre é associado a belas figuras, pessoas de sucesso e lugares paradisíacos, despertando o desejo de consumo por parte do comprador.
Por outro lado, a velocidade com que a indústria aperfeiçoa seus produtos, tornando-os mais atraentes é tal, que um produto lançado torna-se obsoleto num curto período de tempo. Modelos novos, com novas tecnologias, surgem para substituir os que já existem, num ritmo acelerado.
Na medida em que um produto é adquirido o desejo acaba, levando com ele a ilusão que se tinha antes de adquiri-lo, mas logo surgem outros produtos para serem objetos de desejo do homem; novas ofertas de felicidade.
Por fim, penso que há a necessidade de pensar no que temos e do que realmente precisamos.