O ESPELHO - DUAS INTERPRETAÇÕES E UMA IMPLICAÇÃO

 


                         O ESPELHO, Machado de Assis

Interpretação de Alice Paes

Brilhante! Como sempre, Machado de Assis consegue uma narrativa atemporal em que analisa criticamente a sociedade, de forma cáustica e irônica. Mesmo tendo escrito o conto em 1882, o tema é atualíssimo.

Primeiro ele descreve o grupo de intelectuais discutindo metafísica de maneira amigável e introduz o personagem principal como uma figura distante, o quinto elemento, que parece pouco interagir nas discussões. No entanto, este senhor calado passa a ser o personagem principal do conto.

Ele traz para o debate a “dualidade da alma”, alegoria que nos remete a pensar sobre a importância da imagem social e do eu interior.  A narrativa de Jacobina sobre a imagem distorcida do espelho mostra o conflito entre a máscara de seu papel social e o homem que ele acreditava ser. Ele relata como sua repentina ascensão social o faz se perder do homem que era, uma vez que a sociedade passa a vê-lo e tratá-lo com deferência.

Acredito ser atualíssimo o tema pois vivemos numa época em que as aparências ganharam um patamar relevantemente importante na vida das pessoas, a ponto de se preocuparem tanto com a aparência que se submetem aos mais variados procedimentos estéticos em busca de uma perfeição imposta pela mídia e pela indústria da beleza.

No final da década de 1980 li um livro da Coleção Primeiros Passos que se chamava O que é Corpolatria que me marcou pois tratava desta obsessão e culto ao corpo. Na época, achei um exagero, mas vejo que as coisas pioraram muito. E o fato de as influenciadoras digitais sempre mostrarem ao mundo suas vidas lindas, perfeitas e imaculadas acentua essa busca desenfreada por uma aparência utópica. Venho observando com apreensão o comportamento de minhas alunas adolescentes que se sentem cada vez mais distantes do padrão, infelizes e frustradas. Insatisfação e baixa autoestima são constantes nos dias de hoje, numa época em que os distúrbios psicológicos têm aflorado em proporções nunca vistas. Aqui minha reflexão se dá a partir do tema “vulnerabilidade emocional na busca de validação”.

No início de 2025 tivemos a oportunidade de ver o filme A substância, indicado ao Oscar, que, embora muito criticado pelo estilo de horror, desconexo e de mal gosto, procurou acender as discussões sobre esse tema. A teledramaturgia brasileira também neste ano produziu uma novela cujo roteiro inspirou-se no tema da busca desmedida pela estética: Beleza Fatal.

No entanto, é inegável o papel da percepção que os outros tem de nós mesmos para construir quem somos. Acho que a necessidade de pertencimento, mesmo que inconsciente, nos faz optar pela aparência que apresentamos ao mundo. Aqui, muito superficialmente, faço minhas reflexões a respeito do papel social como alma exterior; outro ponto de reflexão sugerido. Ouso aqui utilizar do que consegui captar do Professor Ezequiel e dizer que o que apresentamos no quadrante do “eu aberto” não passa de uma construção. Do corte do cabelo aos acessórios e roupas, tudo passa uma mensagem; mostra de que tribo fazemos parte. Até quando nos achamos imunes à necessidade de pertencimento, no fundo estamos passando uma mensagem: a de que precisamos “provar para todo mundo que não precisamos provar nada pra ninguém” (Quase sem saber do Legião Urbana, 1986).

Nos livros de Chimamanda ela descreve com frequência a importância do cabelo na cultura africana. E cada tribo africana tem seu próprio estilo e identificação, ou seja, o pertencimento, expresso pela maneira como o cabelo é trançado. Ano passado assisti a um documentário em Chicago que contava sobre uma organização não governamental que objetiva ensinar pais de crianças negras, em famílias birraciais, a lidarem e tratarem dos cabelos de suas crianças uma vez que esse elemento é importantíssimo para elas. Esse programa me marcou por abrir meus olhos para o assunto.

Outro ponto de reflexão do texto diz respeito à solidão e desconexão de si. A passagem do conto que relata o quanto a solidão do personagem afetou profundamente sua autoimagem é muito significativa. Ele estava tão envolvido no eu exterior, influenciado pelo seu novo papel social, que ficou perdido sem a constante bajulação que passou a defini-lo. Não se reconheceu. Precisou “fantasiar-se” com sua farda para se reconhecer e aguentar a solidão. Sem toda a parafernália do seu cargo, incluindo a atenção que lhe foi concedida, ele perdeu sua identidade. Associei isso aos exemplos que vemos recorrentemente com jogadores de futebol que de repente se percebem no foco da mídia e dos fãs e acabam se perdendo de suas essências.

Por fim, ao retomarmos o fio condutor que permeia todos os contos que lemos até o momento, que é a questão do olhar do outro moldando quem somos, e especialmente nos dias de hoje, a falta de privacidade nos ambientes virtuais que “roubam” nossos dados para melhor nos manipular. Ao ler o nome deste conto de Machado de Assis, O Espelho, e associá-lo ao tema do impacto negativo das tecnologias na nossa sociedade, me lembrei da série inglesa “The black mirror” que nos apresenta a cada episódio com situações inquietantes e sombrias. A série aborda situações diversas de mal uso da tecnologia e mexe com a audiência ao lidar com questões de falta de privacidade, manipulação, dependência das telas, entre outras. Leitura e identidade: o espelho que nos revela

 

BREVE ANÁLISE DO CONTO – EZEQUIEL THEODORO DA SILVA

O conto O Espelho, de Machado de Assis, é uma pequena joia literária que mistura filosofia e memória pessoal. Nele, um personagem chamado Jacobina propõe uma ideia curiosa e provocadora: todos nós temos duas almas — uma interior, que vive no silêncio da consciência, e outra exterior, que depende do olhar dos outros. É essa alma externa que nos dá forma social, nos reconhece como alguém: um cargo, uma posição, uma imagem refletida no espelho.

A forma do conto é especial. Começa com uma roda de conversa — como a nossa aqui — e, em meio a discussões filosóficas, um dos participantes decide contar uma história de juventude. A narrativa vira então um relato íntimo, cheio de ironia e reflexão. Essa técnica, chamada de “narrativa emoldurada”, faz com que o leitor entre e saia do plano da teoria e da experiência de forma fluida e envolvente. 

Na história, Jacobina conta como, ao ser nomeado alferes, passou a ser tratado com tanta deferência que se esqueceu de si mesmo: virou apenas o posto que ocupava. E quando ficou sozinho, longe dos olhares dos outros, foi como se deixasse de existir. Só voltou a se sentir “alguém” quando se viu fardado diante do espelho.

O conto nos ajuda a pensar em algo muito atual: como construímos a nossa identidade? Será que dependemos demais da imagem que os outros fazem de nós? E o que acontece quando não temos mais plateia?

Na era das redes sociais, esse texto ganha ainda mais força. Estamos o tempo todo sendo vistos, curtidos, seguidos. O espelho de Machado agora é o celular. E talvez, como Jacobina, às vezes só nos reconheçamos quando temos algo a “vestir” que nos garanta atenção — um título, um visual, um sucesso momentâneo.

Machado nos convida a pensar: quem somos quando ninguém está olhando?

 

IMPLICAÇÃO – APRESENTANDO UM CONCEITO PARA COMPREENDER(SE)

Teoria dos Papéis Sociais segundo Erving Goffman

1. O Eu como Performance

  • Metáfora teatral: Goffman propõe que a vida social é como um palco. Cada indivíduo atua diante dos outros, desempenhando “papéis” que se espera dele em cada situação.
  • Cenário: É o ambiente físico e social onde a ação ocorre (ex: o trabalho, a casa, o grupo de leitura).
  • Figurino e adereços: Incluem vestimentas, objetos e atitudes que ajudam a sustentar a performance (como a farda do alferes no conto O Espelho).

2. Fronte e bastidores

  • Fronte (front stage): É o espaço onde o indivíduo se apresenta de forma controlada, seguindo normas sociais. Exemplo: como nos comportamos numa entrevista de emprego.
  • Bastidores (back stage): Espaço onde o indivíduo relaxa e deixa de representar um papel. Exemplo: a intimidade da casa ou de um diário.

3. Controle da impressão

  • As pessoas moldam deliberadamente o modo como são percebidas, controlando o que revelam ou ocultam.
  • Isso é essencial para manter a coerência do papel social e evitar “quebras de personagem”.

4. Papéis múltiplos e identidades fragmentadas

  • Cada pessoa encarna diferentes papéis conforme os grupos com os quais se relaciona (pai, amigo, profissional, leitor, etc.).
  • Conflitos surgem quando os papéis se contradizem ou quando há discrepância entre o eu privado e o eu público.

5. A “máscara” como verdade

  • Para Goffman, a “máscara” usada por uma pessoa não é necessariamente falsa: ela pode revelar tanto quanto esconder. A própria identidade pode se construir no processo de desempenhar papéis.

Aplicação contemporânea e diálogo com a literatura

Essas categorias se ligam diretamente à crônica O Espelho de Machado de Assis, onde o “papel” de alferes transforma a identidade do narrador; ao conto O Gato, de Fernando Sabino, no qual o personagem não quer ser “observado” em sua essência; e ao conto Continuidade dos Parques, de Cortázar, onde os limites entre leitor e personagem se diluem, criando múltiplas camadas de identidade.

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