CRÔNICA O GATO - OS CAMINHOS DAS INTERPRETAÇÕES

 O GATO, Fernando Sabino

A - APRENDA COM AS INTERPRETAÇÕES


O primeiro sentimento que tive ao ler a crônica de Sabino foi a de estar lendo uma de suas crônicas cheias de humor em que ele ironiza a fala dos psicanalistas cheia de termos e conceitos que o homem comum não conseguia entender. Ao ler os questionamentos propostos com relação ao escrutínio e julgamento pelo qual somos expostos diariamente, pensei que deveria reler o texto e me aprofundar nesta questão. Primeiramente, não consigo ler essa crônica sem admirar a qualidade do humor de Fernando Sabino. Não sou da área da psiquiatria e nem mesmo da psicologia, mas achei hilário o psicanalista querer ser o gato. Pessoalmente, acho que o gato que nos observa, disseca e analisa é mesmo o próprio “eu”. A autoconsciência é que nos faz agir, ou não, socialmente. A imagem que temos de nós mesmos nos permite diferentes graus de autoconfiança e determina inclusive o que queremos mostrar ao mundo. Cada fotografia encenada que é postada nas mídias sociais mostra ao observador atento o que consideramos importante, do que nos orgulhamos e outras tantas coisas que nem saberia dizer, principalmente por eu não ser essa pessoa observadora.

Com relação a sermos observados, acho que isso ocorre a todos desde o nascimento. Me lembro do meu pai que nos dizia que devíamos nos comportar à mesa como se estivéssemos num ambiente público e exigia de nós o cumprimento da etiqueta que ele considerava adequada. Ele alegava que se diariamente agíssemos como se estivéssemos sendo observados, agiríamos com naturalidade no dia em que estivéssemos realmente em público. Somos observados pelos nossos pais, professores, colegas e amigos (e inimigos) desde sempre. A sociedade sempre está de olho nas ações e comportamentos alheios, pronta para apontar o dedo a qualquer um que ouse desviar do padrão; da norma. Caetano Veloso já dizia em sua música “Narciso acha feio tudo que não é espelho”. Sempre gostei desta frase por entender que a primeira reação do ser humano ao se deparar com o diferente é rejeitar. Acontece que nos dias de hoje, com a rapidez da informação, com acesso ao mundo todo num clique, com o advento das mídias sociais criando e exibindo vidas fantasiosas e glamorosas, esse padrão ficou inatingível.

Ademais, a sociedade, em geral, é rápida em identificar aquele que é diferente, seja em pensamento, em movimento ou em aparência. E ainda contamos com o fenômeno das pessoas pensarem que por estarem escondidas atrás de suas telas, têm o direito (e ouso dizer o prazer) em atacar pessoas com uma insensibilidade que não teriam coragem de exibir se fossem fazê-lo pessoalmente. 

Com relação ao olhar, me incomoda muito se percebo que alguém está me encarando. Ter consciência de que sou observada, vá lá; mas o olhar descarado acho agressivo e invasivo. É diferente se estou fazendo uma performance. Quando dançava ballet ou participava de peças de teatro, o olhar era bem-vindo. Mas o caráter desse tipo de olhar era diferente e eu estava representando; as pessoas não estavam me vendo ou encarando, mas avaliando meu personagem e minha atuação. 

Diferente do cão que nos acompanha, nos analisa e nos conforta, sempre com seus olhos expressivos, quase humanos, o gato nos observa de maneira mais fria, calculista e, nos julgando, numa vigília constante e perturbadora. Já tive muitos cães e, também, muitos gatos  ao longo de minha vida e, me recordo das palavras de minha avó materna, com a sabedoria dos 12 filhos que ela pariu e da perda de quase a metade  deles, em diferentes fases de sua  agitada vida. Ela dizia: "O cão gosta da pessoas que habitam a casa , enquanto que, o gato aprecia as vantagens que a casa lhe proporciona."  Às vezes, sou como o gato: observadora. Aliás, uma das características essenciais para a profissão de Psicóloga. Em outras ocasiões, me sinto como um cão que conforta e ampara. E, como ultimo quesito da análise do texto: "Não me constrange ser observada". Aliás, a grande maioria dos artistas que conheço, pensam exatamente assim.

Adorei! Somos várias em uma. Nunca somos uma só e é possível que ninguém nos conheça totalmente, como diz a personagem de "A contagem dos sonhos" de Chimamanda Ngozi Adichie.

Sem nenhum embasamento psicanalítico, até porque não tenho conhecimento específico, considero que o gato é ao mesmo tempo o personagem e o terapeuta. Ele é o símbolo da projeção do personagem, ao mesmo tempo que sua presença significa o olhar atento do analista.

O personagem não quer que o terapeuta seja o gato, portanto nota-se que ele não quer ser observado por outra pessoa. Isto nos mostra que ele é relutante à terapia.

Deixar de ser o gato é também deixar de ser livre para sonhar, e, no direito de sonhar, cada um é dono de seu sonho.

Quanto às questões sobre o olhar que nos revela ( ou nos constrange), tenho que admitir que me sinto constrangida quando percebo alguém me observando, apesar de ter plena consciência de que no mundo atual somos observados o tempo todo sem perceber. Mas, também temos que observar o outro, pois om olhar do outro faz parte da construção da nossa identidade. A gente se vê a partir do outro, e o que nos faz únicos é nos enxergar diferentes de outros.

Nossa enigmático....... o que mais me chamou a atenção foi a temática 2. O quanto estamos sendo observados o tempo todo, seja através de nosso lixo físico ou digital, câmeras de monitoramento nas ruas ou em nossos condomínios, nossas redes sociais, entre outras formas de sermos observados e julgados. Em nossas redes sociais ainda podemos escolher o que vamos mostrar .... mas qual o olhar que devemos ter sobre a rede de outras pessoas? será que é o que queremos ver? Fazendo um link entre as duas crônicas podemos perceber que o ser humano tem muito interesse pela vida alheia .... sempre de olho

Não é a toa que o Big Brother Brasil já está em sua 25a. edição... Voyeurismo puro! E concordo quando vc fala sobre o quanto essa exposição está cada vez mais intensa nos dias de hoje, com câmeras por todo o lado.

A temática que mais me atraiu foi a 4°. - identidade e duplicidade. Fico pensando se é possível mensurar quantas versões de nós mesmos temos. Sou mãe, esposa, filha, irmã, amiga, conhecida, desconhecida. Sou profissional, mulher, dona de casa, sou advogada, sou professora, sou aluna. Não acredito que nenhuma versão se cale, mas também não sei exatamente quando se convergem. Quem sou eu? Excelente temática para frutíferas discussões.

B- CATEGORIZAÇÃO DAS INTERPRETAÇÕES

Humor e ironia: Muitos leitores destacaram o humor característico de Sabino, principalmente na forma como ironiza a fala dos psicanalistas e questiona a seriedade de conceitos que nem sempre são claros para todos.

O olhar como julgamento e vigilância: O tema do olhar — seja literal ou simbólico — apareceu com força, associado ao constrangimento de ser observado, ao julgamento social e à invasão da privacidade.

Autoconsciência e identidade: Vários comentários apontaram que o gato pode representar o próprio eu, a autoconsciência que nos faz refletir sobre quem somos e como nos apresentamos aos outros, especialmente nas redes sociais.

A sociedade como fiscalizadora: A ideia de que estamos sempre sendo observados — pela família, pela sociedade, pelas redes — foi mencionada diversas vezes, incluindo referências à música de Caetano Veloso e ao fenômeno do Big Brother como expressão de voyeurismo contemporâneo.

O gato como metáfora psicológica: Alguns leitores destacaram o gato como símbolo da projeção, do analista e até da relutância à terapia, abordando o tema da psicanálise de forma sensível, mesmo sem formação específica.


C - PERCURSOS DAS INTERPRETAÇÕES 

Os participantes partiram de suas próprias vivências para compreender a crônica: alguns enfatizaram o humor e a crítica social, outros exploraram a complexidade de ser observado e julgado, enquanto outros ainda mergulharam em reflexões sobre identidade e duplicidade. A crônica serviu como um espelho que refletiu diferentes olhares: ora desconfiados, ora acolhedores, sempre curiosos sobre o tema do olhar — seja ele o do gato, o do analista ou o do outro.


D - SENTIMENTOS REVELADOS

Sentimento de constrangimento e desconforto diante da ideia de estar sendo observado, especialmente em situações cotidianas e nas redes sociais.

Percepção crítica sobre o julgamento social, que pressiona a aderir a padrões e normas.

Curiosidade sobre a própria identidade, reconhecendo a multiplicidade de papéis que cada um exerce (mãe, profissional, etc.).

Reconhecimento do humor como ferramenta para discutir temas complexos, como a vigilância social e a psicanálise.

Sensação de inquietação com a invasão de privacidade, seja no convívio familiar ou nas relações digitais.


E - ENSINAMENTOS DA PSICANÁLISE PARA ENTENDER A CRÔNICA 

O olhar do outro como espelho - Na psicanálise, principalmente em Lacan, o olhar do outro é essencial para a formação da identidade: somos moldados pelo que vemos e pelo que os outros veem em nós.

O gato como projeção - O gato pode simbolizar o analista ou até mesmo a própria consciência vigilante do indivíduo, sugerindo que o protagonista teme ser interpretado e decifrado.

A recusa da análise como resistência - O desconforto do personagem com o gato/analista mostra a resistência que muitos pacientes têm de se expor na terapia, preferindo manter o mistério de seus sentimentos.

A multiplicidade do eu - A ideia de sermos “vários em um” reflete a noção de que somos formados por diversas partes, muitas vezes conflitantes, que se expressam de modos diferentes dependendo do contexto.

O humor como defesa - O riso na crônica pode ser visto como um mecanismo de defesa que alivia a tensão de sermos observados e julgados, mas também denuncia as fragilidades humanas.


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