Conexões involuntárias, Ezequiel Theodoro da Silva
Conexões involuntárias*
Ezequiel Theodoro da Silva
Acordei hoje com um pensamento pitoresco: não era o som do meu despertador, mas o tinir suave e pululante do celular que me botou de pé. Há horas a bateria já havia morrido, mas eu, fiel ao ritual, empilhei travesseiros sobre o botão liga-desliga — puramente por hábito.
No café da manhã, em vez de café quente, sorvia notícias frias da timeline. “Bom mesmo é ficar vivo pelo visto” — eu pensei — ainda que por minutos, iludido de que minha existência dependia de curtidas.
Entrei no chuveiro e ali, mesmo entre shampoo e sabonete, lembrei de ler os comentários que bombavam na última publicação. A água corria, mas o pensamento fluía nas redes — sem economia.
Saí de casa, camisa por fora da calça, bolsa pra lá, celular na mão. Um pedestre distraído vinha colado no telefone — esbarrei nele. Ele se desculpou: “Me desculpa, mas meu GPS estava atualizando o ponto”. Pensei: nem minha mãe me achava tão importante.
No trabalho, a sala virou caixa de som de notificações. Pingar um “ping” aqui, um “dint” ali. E se você se desconectasse, ficaria invisível — um fantasma digital. A impressão que tive é que passei a dever explicações à bateria do celular, mais do que ao chefe.
Eram 15h quando decidi: ia dar um tempo. Fechei janelas do navegador, suspendi o Wi‑Fi, só falei com pessoas. Aquelas de carne, osso, e, sem escolha, pelo menos com fôlego humano. Foi então que, pela primeira vez naquele dia, ouvi o canto de um pássaro — de verdade.
Lembrei de como é perder minutos para pensar, sem pressa de compartilhar, sem rodapé de opções ou filtros prontos. Foi quando meu celular, talvez por ciúmes, silenciou sozinho. Resoluto, mas sem nenhuma consulta automática.
Voltei pra casa pensando em escrever algo no papel. A caneta pediu licença e eu dei — mas sob a luz de uma lâmpada. Nem cogitei o tablet. Escrevi uma frase: “A vida pode esperar um upload” — e ela sequer precisava de correções automáticas.
E aconteceu: desliguei a luminosidade azul, recuei o tempo das teclas e ganhei instantes. Queria que ninguém curtisse essa frase, que ela fosse apenas minha, sem rastro nenhum, pequena e silenciosa, ainda que vulnerável.
Hoje à noite, espero dormir e sonhar sem notificações. Já avisei ao celular: amanhã é dia de só olhar quando a luz natural chegar. Caso contrário, ele vai para a gaveta — ou talvez, para um templo de antioxidantes digitais.
Sei que amanhã vou escorregar de novo: o hábito é mais forte que a vontade. Mas, por uma vez, entre redes que nos prendem, escolhi me soltar — e respirar com moderação automática.
No fim, percebi que o verdadeiro upgrade da vida não exige conexão, atualização ou swipe — apenas alguma calma, um pouco de desplugue e muita humanidade real. Quem diria que um domingo offline pudesse ser tão satisfatório?
* Crônica produzida especialmente para o Círculo Literário da Hípica (junho de 2025)
1. A Nova Vigilância: entre algoritmos e olhares invisíveis
2. A Identidade Algorítmica: o que somos quando clicamos?
3. O Vazio do Excesso: consumir ou existir?



Comentários
Com a chuva de informações num celular, tudo se torna muito superficial. O que se adquire é passageiro e muitas vezes duvidoso.
O pior é a dependência do celular; não se vive mais sem ele.
Em tempos atuais, concordo que o celular é necessário, mas, como sugere o conto, saber dosar o tempo para o uso do celular e o tempo de viver momentos exclusivos, de total liberdade , sem que o toque nos tire a concentração para algo mais interessante é fundamental
para uma vida saudável.
Achei perfeito o termo: “Templo de antioxidantes digitais”.
A ilustração me chamou a atenção de como estamos numa verdadeira prisão. Agora não temos como escapar...Estamos dependentes, sobrecarregados da tecnologia...
É fundamental acharmos um equilíbrio em nossa vida turbulenta. Aquilo que consideramos importante nas nossas interações sociais como por exemplo: abraçar, tocar, conversar “olho no olho”, sentir aromas, sensações... nunca sejam desprezados.
Gostei muito da crônica.
Achei perfeito o termo: “Templo de antioxidantes digitais”.
A ilustração me chamou a atenção de como estamos numa verdadeira prisão. Agora não temos como escapar...Estamos dependentes, sobrecarregados da tecnologia...
É fundamental acharmos um equilíbrio em nossa vida turbulenta. Aquilo que consideramos importante nas nossas interações sociais como por exemplo: abraçar, tocar, conversar “olho no olho”, sentir aromas, sensações... nunca sejam desprezados.
Gostei muito da crônica.
Achei perfeito o termo: “Templo de antioxidantes digitais”.
A ilustração me chamou a atenção de como estamos numa verdadeira prisão. Agora não temos como escapar...Estamos dependentes, sobrecarregados da tecnologia...
É fundamental acharmos um equilíbrio em nossa vida turbulenta. Aquilo que consideramos importante nas nossas interações sociais como por exemplo: abraçar, tocar, conversar “olho no olho”, sentir aromas, sensações... nunca sejam desprezados.
Gostei muito da crônica.
Achei perfeito o termo: “Templo de antioxidantes digitais”.
A ilustração me chamou a atenção de como estamos numa verdadeira prisão. Agora não temos como escapar...Estamos dependentes, sobrecarregados da tecnologia...
É fundamental acharmos um equilíbrio em nossa vida turbulenta. Aquilo que consideramos importante nas nossas interações sociais como por exemplo: abraçar, tocar, conversar “olho no olho”, sentir aromas, sensações... nunca sejam desprezados.
Gostei muito da crônica.