CRÔNICA 02 - O GATO, Fernando Sabino

O GATO

                                  Fernando Sabino

 


– Aí então, eu sonhei que tinha acordado. Mas continuei dormindo.

– Continuou dormindo.

– Continuei dormindo e sonhando. Sonhei que estava acordado na cama, e ao lado, sentado na cadeira, tinha um gato me olhando.

– Que espécie de gato?

– Não sei. Um gato. Não entendo de gatos. Acho que era um gato preto. Só sei que me olhava com aqueles olhos parados de gato.

– A que você associa essa imagem?

– Não era uma imagem: era um gato.

– Estou dizendo a imagem do seu sonho: essa criação onírica simboliza uma profunda vivência interior. É uma projeção do seu subconsciente. A que você associa ela?

– Associo a um gato.

– Eu sei: aparentemente se trata de um gato. Mas na realidade o gato, no caso, é a representação de alguém. Alguém que lhe inspira um temor reverencial. Alguém que a seu ver está buscando desvendar o seu mais íntimo segredo. Quem pode ser essa alguém, me diga? Você deitado aí nesse divã como na cama em seu sonho, eu aqui nesta poltrona, o gato na cadeira… Evidentemente esse gato sou eu.

– Essa não, doutor. A ser alguém, neste caso o gato sou eu.

– Você está enganado. E o mais curioso é que, ao mesmo tempo, está certo, certíssimo, no sentido em que tudo o que se sonha não passa de uma projeção do eu.

– Uma projeção do senhor?

– Não: uma projeção do eu. O eu, no caso, é você.

– Eu sou o senhor? Qual é, doutor? Está querendo me confundir a cabeça ainda mais? Eu sou eu, o senhor é o senhor, e estamos conversados.

– Eu sei: eu sou eu, você é você. Nem eu iria pôr em dúvida uma coisa dessas, mais do que evidente. Não é isso que eu estou dizendo. Quando falo no eu, não estou falando em mim, por favor, entenda.

– Em quem o senhor está falando?

– Estou falando na individualidade do ser, que se projeta em símbolos oníricos. Dos quais o gato do seu sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim. Por isso é que eu digo que o gato sou eu.

– Absolutamente. O senhor vai me desculpar, doutor, mas o gato sou eu, e disto não abro mão.

– Vamos analisar essa sua resistência em admitir que eu seja o gato.

– Então vamos começar pela sua insistência em querer ser o gato. Afinal de contas, de quem é o sonho: meu ou seu?

– Seu. Quanto a isto, não há a menor dúvida.

– Pois então? Sendo assim, não há também a menor dúvida de que o gato sou eu, não é mesmo?

– Aí é que você se engana. O gato é você, na sua opinião. E sua opinião é suspeita, porque formulada pelo consciente. Ao passo que, no subconsciente, o gato é uma representação do que significo para você. Portanto, insisto em dizer: o gato sou eu.

– E eu insisto em dizer: não é.

– Sou.

– Não é. O senhor por favor saia do meu gato, que senão eu não volto mais aqui.

– Observe como inconscientemente você está rejeitando minha interferência na sua vida através de uma chantagem…

– Que é que há, doutor? Está me chamando de chantagista?

– É um modo de dizer. Não vai nisso nenhuma ofensa. Quero me referir à sua recusa de que eu participe de sua vida, mesmo num sonho, na forma de um gato.

– Pois se o gato sou eu! Daqui a pouco o senhor vai querer cobrar consulta até dentro do meu sonho.

– Olhe aí, não estou dizendo? Olhe a sua reação: isso é a sua maneira de me agredir. Não posso cobrar consulta dentro do seu sonho enquanto eu assumir nele a forma de um gato.

– Já disse que o gato sou eu!

– Sou eu!

– Ponha-se para fora do meu gato!

– Ponha-se para fora daqui!

– Sou eu!

– Eu!

– Eu! Eu!

– Eu! Eu! Eu!

                       In: SABINO, Fernando. O gato sou eu. Rio de Janeiro: Editora Record, 1995.


TEMÁTICAS PARA REFLEXÃO E COMENTÁRIOS

Selecione uma das temáticas abaixo (aquela que mais lhe atrair) e escreva o seu comentário aqui nesta página (basta rolar na vertical). Fica a recomendação para que os integrantes do Círculo leiam com carinho os comentários e os comentem também. Assim vamos rodando e trocando impressões sobre esta segunda crônica.


1. O olhar que nos revela (ou nos constrange)  - A presença do gato no sonho é uma metáfora para o olhar que penetra, que julga, que nos faz conscientes de nós mesmos.

→ Como reagimos quando sentimos que estamos sendo observados, mesmo que de modo simbólico?

→ Que papel o olhar do outro tem na construção da nossa identidade?


 2. A sensação de estar exposto (ligação direta com “O Lixo”) - Assim como o marido vasculha o lixo da esposa na crônica de Veríssimo, o gato de Sabino representa a figura da vigília constante.

→ O que nos inquieta mais: sermos julgados por algo que mostramos... ou por algo que tentamos esconder?

→ Até que ponto a presença de um “observador invisível” afeta nosso comportamento?


3. Quem é você quando ninguém está olhando? - O texto nos leva à introspecção: existe um “eu secreto” que só se manifesta no silêncio, no sonho, ou em espaços sem vigilância?

→ Que partes de nós são reprimidas pela presença constante do olhar social, digital ou psicanalítico?


4. Identidade e duplicidade: somos o gato ou o observado?

O final da crônica cria uma inversão curiosa: o personagem é o próprio gato.

→ Quantas versões de nós mesmos convivem em silêncio?

→ A autoimagem é construída de dentro para fora ou de fora para dentro?


 5. O poder simbólico do gato. - Na literatura, o gato é muitas vezes símbolo de mistério, vigilância, autonomia ou alteridade.

→ Como essa figura silenciosa e atenta representa forças psíquicas internas ou sociais que nos cercam?

→ Há uma presença constante na vida moderna — como os algoritmos — que assume esse papel de “gato” em silêncio?



Comentários

Eliza Remédio disse…
A temática que mais me atraiu foi a 4°. - identidade e duplicidade. Fico pensando se é possível mensurar quantas versões de nós mesmos temos. Sou mãe, esposa, filha, irmã, amiga, conhecida, desconhecida. Sou profissional, mulher, dona de casa, sou advogada, sou professora, sou aluna. Não acredito que nenhuma versão se cale, mas também não sei exatamente quando se convergem. Quem sou eu? Excelente temática para frutíferas discussões.
Maria Elisabete disse…
Sem nenhum embasamento psicanalítico, até porque não tenho conhecimento
específico, considero que o gato é ao mesmo tempo o personagem e o terapeuta. Ele é o símbolo da projeção do personagem, ao mesmo tempo que sua presença significa o olhar atento do analista.
O personagem não quer que o terapeuta seja o gato, portanto nota-se que ele não quer ser observado por outra pessoa. Isto nos mostra que ele é relutante à terapia.
Deixar de ser o gato é também deixar de ser livre para sonhar, e, no direito de sonhar, cada um é dono de seu sonho.
Quanto às questões sobre o olhar que nos revela ( ou nos constrange), tenho que admitir que me sinto constrangida quando percebo alguém me observando, apesar de ter plena consciência de que no mundo atual somos observados o tempo todo sem perceber. Mas, também temos que observar o outro, pois om olhar do outro faz parte da construção da nossa identidade. A gente se vê a partir do outro, e o que nos faz únicos é nos enxergar diferentes de outros.
Alice disse…
Adorei! Somos várias em uma. Nunca somos uma só e é possível que ninguém nos conheça totalmente, como diz a personagem de "A contagem dos sonhos" de Chimamanda Ngozi Adichie.
Alice disse…
Achei muito interessante você dizer que observar o outro faz parte da construção de nossa identidade. Nunca tinha pensado nisso.
Alice disse…
O primeiro sentimento que tive ao ler a crônica de Sabino foi a de estar lendo uma de suas crônicas cheias de humor em que ele ironiza a fala dos psicanalistas cheia de termos e conceitos que o homem comum não conseguia entender.
Ao ler os questionamentos propostos com relação ao escrutínio e julgamento pelo qual somos expostos diariamente, pensei que deveria reler o texto e me aprofundar nesta questão. Primeiramente, não consigo ler essa crônica sem admirar a qualidade do humor de Fernando Sabino. Não sou da área da psiquiatria e nem mesmo da psicologia, mas achei hilário o psicanalista querer ser o gato. Pessoalmente, acho que o gato que nos observa, disseca e analisa é mesmo o próprio “eu”. A autoconsciência é que nos faz agir, ou não, socialmente. A imagem que temos de nós mesmos nos permite diferentes graus de autoconfiança e determina inclusive o que queremos mostrar ao mundo. Cada fotografia encenada que é postada nas mídias sociais mostra ao observador atento o que consideramos importante, do que nos orgulhamos e outras tantas coisas que nem saberia dizer, principalmente por eu não ser essa pessoa observadora.
Com relação a sermos observados, acho que isso ocorre a todos desde o nascimento. Me lembro do meu pai que nos dizia que devíamos nos comportar à mesa como se estivéssemos num ambiente público e exigia de nós o cumprimento da etiqueta que ele considerava adequada. Ele alegava que se diariamente agíssemos como se estivéssemos sendo observados, agiríamos com naturalidade no dia em que estivéssemos realmente em público. Somos observados pelos nossos pais, professores, colegas e amigos (e inimigos) desde sempre. A sociedade sempre está de olho nas ações e comportamentos alheios, pronta para apontar o dedo a qualquer um que ouse desviar do padrão; da norma. Caetanos Veloso já dizia em sua música “Narciso acha feio tudo que não é espelho”. Sempre gostei desta frase por entender que a primeira reação do ser humano ao se deparar com o diferente é rejeitar. Acontece que nos dias de hoje, com a rapidez da informação, com acesso ao mundo todo num clique, com o advento das mídias sociais criando e exibindo vidas fantasiosas e glamourosas, esse padrão ficou inatingível.
Ademais, a sociedade, em geral, é rápida em identificar aquele que é diferente, seja em pensamento, em movimento ou em aparência. E ainda contamos com o fenômeno das pessoas pensarem que por estarem escondidas atrás de suas telas, têm o direito (e ouso dizer o prazer) em atacar pessoas com uma insensibilidade que não teriam coragem de exibir se fossem fazê-lo pessoalmente.
Com relação ao olhar, me incomoda muito se percebo que alguém está me encarando. Ter consciência de que sou observada, vá lá; mas o olhar descarado acho agressivo e invasivo. É diferente se estou fazendo uma performance. Quando dançava ballet ou participava de peças de teatro, o olhar era bem-vindo. Mas o caráter desse tipo de olhar era diferente e eu estava representando; as pessoas não estavam me vendo ou encarando, mas avaliando meu personagem e minha atuação.
Flavia Boavista disse…
Nossa enigmático....... o que mais me chamou a atenção foi a temática 2. O quanto estamos sendo observados o tempo todo, seja através de nosso lixo fisico ou digital, câmeras de monitoramento nas ruas ou em nossos condomínios, nossas redes sociais, entre outras formas de sermos observados e julgados. Em nossas redes sociais ainda podemos escolher o que vamos mostrar .... mas qual o olhar que devemos ter sobre a rede de outras pessoas?
será que é o que queremos ver?
Fazendo um link entre as duas crônicas podemos perceber que o ser humano tem muito interesse pela vida alheia .... sempre de olho
Alice disse…
Não é a toa que o Big Brother Brasil já está em sua 25a. edição... Voyerismo puro! E concordo quando vc fala sobre o quanto essa exposição está cada vez mais intensa nos dias de hoje, com câmeras por todo o lado.

Postagens mais visitadas