Interpretação de Continuidade dos parques (Julio Cortázar) - Alice Lobo Paes

 


Delicioso conto do argentino Julio Cortázar. Curto e envolvente, o conto inicialmente me fez reviver as sensações que vivencio quando estou lendo um livro: a frustração de ter que interromper por causa do cotidiano atribulado; a criação das cenas e personagens que vão ganhando corpo em minha mente à medida que a leitura vai avançando; o momento em que estou envolvida na trama, desligada do meu entorno... Sempre fui uma leitora passional mais do que racional. Adoro viver e sentir o que estou lendo; nunca fui de analisar o porquê de ter gostado ou não de certo romance ou escritor. Apenas sinto. Choro, dou risada, sinto na pele. Adorei o final, quando nos damos conta de que não há distinção entre realidade e ficção. Afinal, a arte imita a vida; ou a vida imita a arte?

Quando às sugestões de análise, tentei pensar em cada uma delas.

Suponha que você esteja lendo um livro e, aos poucos, perceba que ele começa a descrever exatamente o que você está fazendo – Você continuaria a leitura ou fecharia o livro com receio?

Depende o livro que eu estiver lendo... Se eu estiver lendo um livro de terror do estilo Stephen King e começar a me enxergar na trama, eu provavelmente fecharia o livro. Isso me lembrou um filme antigo que assisti e no qual a protagonista, uma fotógrafa, enxergava através dos olhos de um assassino, e há a cena em que ela se vê perseguida por ele. Aterrorizante! Suspense dos anos 70: Os olhos de Laura Mars.

Imagine que, ao navegar na internet, tudo o que você faz está sendo “lido” e registrado por um sistema invisível. – Em que momento você deixa de ser sujeito da ação e se torna o personagem da história?

Isto é fato. Tudo que publicamos nunca mais pode ser deletado da rede. Talvez por isso eu não seja muito ativa nas mídias sociais. Mas na verdade, sempre me senti como personagem da minha própria história. Cada um tem a sua história e, em várias versões: aquela que contamos a nós mesmos; aquela que os outros enxergam ou imaginam; além das que poderiam ter sido... Isso me faz lembrar do livro A biblioteca da meia noite de Matt Haig; romance que fala sobre as infinitas vidas que podemos ter a partir de pequena escolha que fazemos. Vale a leitura.

 E se cada história que você lê também estivesse “lendo você” – O que ela descobriria sobre seus hábitos, silêncios ou desejos mais íntimos?

Confesso que tive dificuldade nesta resposta. Descobriria, sem dúvidas, que sou passional, cheia de dúvidas e curiosidades. Por outro lado, não estamos todos sendo o tempo todo “lidos”, rotulados e registrados na nuvem? Vigiados pelas inúmeras câmeras espalhadas pelo planeta? Achei essa pergunta complexa e, ao mesmo tempo, pensei na comédia do final do século passado O show de Truman.  Somos parte de um “Big Brother”.

Suponha que toda a sua vida já estivesse escrita, como num roteiro – e você apenas a percorresse sem saber. Você tentaria mudar o curso ou aceitaria o enredo?

Esta suposição é digna de reflexões que dariam um textão! Mas prefiro crer no livre arbítrio e nos milhares de multiversos possíveis a cada encruzilhada pela qual passamos. Por outro lado, há inúmeras histórias, desde mitológicas até ficções fantásticas, que mostram que não se pode mudar a profecia; o que tiver de ser, será. 

Imagine-se dentro de um romance – Qual livro você escolheria para viver dentro? E o que isso diz sobre quem você é?

Não sei o que dizer. Sinto que na verdade já vivi dentro de vários livros; dependendo da minha idade, maturidade, estado de espírito...  Talvez isso revele que estou em constante mutação. 

E se a literatura não fosse apenas entretenimento, mas uma experiência capaz de abalar ou modificar seu modo de ver o mundo? – Você estaria disposto a ser transformado por um texto?

Não tenho dúvidas de que a literatura seja muito mais do que mero entretenimento. É poderosa! Não é à toa que vários regimes autoritários rapidamente controlam o que a população pode ler. Queimam livros e condenam os que insistem em ler. Há inúmeras obras que poderia citar que relatam a importância da literatura, cito as seguintes que li e gostei: Balzac e a costureirinha Chinesa, Dai Sijie; A bibliotecária dos livros queimados, Brianna Labuskes; A biblioteca de Paris, Janet Skeslien Charles. Certamente há muitos outros livros interessantes sobre o tema. Portanto, eu não só estou disposta a ser transformada por um texto, mas sinto isso na pele; sinto-me privilegiada por viver num tempo e lugar em que posso ler o que quiser e por posso ver o mundo a partir de diferentes olhos. Adoro conhecer pessoas, culturas e épocas diferentes a partir dos livros que leio.

Comentários

Lindo trabalho, inclusive sugerindo outros livros pertinentes
Flavia Boavista disse…
O conto se constrói sobre um recurso sofisticado: a metaficção, onde os limites entre a realidade e a ficção se diluem de forma quase imperceptível. A princípio, acompanhamos um homem voltando à sua rotina confortável e lendo um romance, até que o leitor se torna parte da própria história que lia. A narrativa é breve, condensada e engenhosa, composta com precisão cirúrgica, algo típico da prosa cortazariana.

A fusão entre os dois mundos — o da realidade (do leitor) e da ficção (do romance) — culmina num final surpreendente, onde o protagonista da história lida com um assassinato… e esse assassinato parece ser justamente o do leitor da história. A aparente quebra da continuidade entre os parques (um símbolo para os dois mundos, o real e o ficcional) é, na verdade, a revelação de sua continuidade absoluta.

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