QUANDO A PERSONAGEM É UMA RÃ...

 A rã que queria ser uma rã autêntica

Augusto Monterroso


Era uma vez uma rã que queria ser uma rã autêntica, e que todos os dias se esforçava para isso.

No começo ela comprou um espelho onde se olhava longamente procurando sua almejada autenticidade.

Algumas vezes parecia encontrá-la e outras não, de acordo com o humor desse dia e da hora, até que se cansou disso e guardou o espelho num baú.

Finalmente, ela pensou que a única maneira de conhecer seu próprio valor estava na opinião das pessoas, e começou a se pentear e a se vestir e a se despir (quando não lhe restava nenhum outro recurso) para saber se os outros a aprovavam e reconheciam que era uma rã autêntica.

Um dia observou que o que mais admiravam nela era seu corpo, especialmente suas pernas, de forma que se dedicou a fazer exercícios e a pular para ter ancas cada vez melhores, e sentia que todos a aplaudiam.

E assim continuava fazendo esforços até que, disposta a qualquer coisa para conseguir que a considerassem uma rã autêntica, deixava que lhe arrancassem as ancas, e os outros as comiam, e ela ainda chegava a ouvir com amargura quando diziam: que ótima rã, até parece frango.

Do livro 16 Contos Latino-Americanos (1992)

TEMAS PARA COMENTAR E DISCUTIR

1. A busca da autenticidade e a influência externa
Até que ponto a rã é dona de si mesma? A necessidade de aprovação externa a distancia cada vez mais de sua “autenticidade”. Como esse dilema reflete a nossa própria relação com a busca de identidade e aceitação?

2. O corpo como medida de valor
O que significa a transformação do corpo da rã em mercadoria de aprovação social? Como a ênfase nas pernas e nos aplausos simboliza a redução da personagem ao olhar dos outros?

Autossacrifício e perda de identidade
Ao entregar suas ancas para ser reconhecida, a rã consome a si mesma em busca de legitimação. Em que medida isso pode ser lido como metáfora da autossabotagem humana diante de padrões impostos pela sociedade?

Comentários

Neide disse…
Apreciando muito estes temas sobre personagens. Trago as narrativas para a vida prática. O conto da Rã, lembra-me as mulheres que usam tantos recursos estéticos para modificar o corpo , plásticas e botox para o rosto, que se transformam, ficam irreconhecíveis, uma aberração do normal. Parece doentio, cada vez se submetem mais às modificações. Parecem que acabam perdendo sua identidade. O mesmo para os homens nas academias, no fisioculturismo, se excedem e se sentem um super homem; parecem querer testar suas forças, espancando pessoas indefesas. Chega a ser doentio
Sobre a língua do P, o sexto sentido também a fez perceber que estava sendo ameaçada e seu instinto de sobrevivência a fez pensar numa saída inteligente de ser protegida pelos policiais, bem melhor se só pedisse ajuda sem provas, não teriam acreditado; o fato da morte da moça veio comprovar suas suspeitas.
Alice disse…
Interessante a personagem ser uma rã. Não é de hoje que escritores utilizam este artifício de criar personagens animais para representar virtudes ou comportamentos humanos. Esopo era um utilizada animais como personagens a fim de passar sabedoria aos leitores. Rapidamente consigo pensar no Animal Farm de George Orwell e vários autores nacionais (Machado de Assis, Clarisse Lispector, Orígines Lessa, etc) que se utilizaram protagonismo de bichos.
Nossa personagem em questão é complexa. Busca saber quem é; quer ser autêntica, verdadeira e para tanto se perdeu. Não sabe quem é verdadeiramente; cansou-se de buscar respostas em sua imagem refletida no espelho então foi buscar na imagem que os outros tem dela. E para tanto, foi modificando sua imagem externa tentando agradar e ouvir o que dizem a seu respeito. Preocupou-se tanto em se mostrar que perdeu sua essência. Acabou confundida com frango.
Neste conto, o comportamento humano que mais me saltou aos olhos foi o de buscar excessivamente uma perfeição estética superficial, preocupando-se demasiadamente com o que os outros pensam e dizem a seu respeito. Iniciou com uma relação narcísica, observando-se no espelho e quando este não era mais suficiente para satisfazer seu amor próprio, foi buscar satisfação na opinião alheia. Esse comportamento está muito evidente nos dias de hoje quando as pessoas ficam postando selfies para ver quantos “likes” conseguirão. Quanto à busca de autenticidade, o que observo são inúmeras mulheres se tornando iguais: mesmas sobrancelhas, mesmos lábios, mesma “harmonização”, o que faz com que nenhuma seja efetivamente autêntica.
Alice disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Alice disse…
Neide, gostei bastante de você ter percebido esse comportamento também no ambiente masculino. Eu só enxerguei o exagero dos recursos estéticos nas mulheres e achei excelente sua observação!
Maria Elisabete disse…
A rã modificou tanto o seu corpo, que ficou parecida com um frango. A estória se repete com os humanos. A ênfase nas pernas se deu porque as pessoas comem apenas as pernas das rãs, o que as torna mais desejadas.
Com a falta de auto estima e amor próprio, a rã só se preocupava com a aparência, esquecendo-se de que existe a beleza interior. Como a ela, as pessoas se olham no espelho, e, diante de sua imagem, sonham em possuir o padrão de beleza imposto pela mídia; daí a necessidade de modificar a aparência para se sentir aceita.
Mulheres e homens se sujeitam aos maiores sacrifícios e dores e muitos até morrem em nome da beleza dos padrões atuais, para serem belos ao olhar alheio.
Por outro lado, há pessoas que fazem uma sequência de procedimentos, e nunca vão ficar satisfeitas, porque sempre vão se enxergar feias. A não aceitação de si próprio traz consequências para quem vive em sociedade.
O espelho reflete o exterior, mas muitas pessoas não percebem que ele também mostra o interior. Achar-se bonita ou feia depende do estado de espírito, que estará sempre estampado e refletido através do espelho. As expressões também mostram tanto quanto o espelho a beleza interior de cada um.
Vânia disse…
Esse conto mostra uma rã que queria ser especial. Nesta perspectiva ela acaba se preocupando demais com o que os outros esperam dela em vez de ser ela mesma, a rã vive para agradar os outros, copiando comportamentos, seguindo modas para ser aceita. O valor da aparência em detrimento da essência, representa a dificuldade de ser nós mesmos em um mundo que nos julga.
Alice disse…
Isso mesmo Maria Elisabete! Quem não tem uma autoimagem boa nunca vai estar satisfeita! Gostei muito de sua reflexão de que o espelho também mostra o interior.
Conto engraçado, mas profundo... Quantas rãs existem ... Milhões tanto do gênero masculino ou do feminino.
A “busca pela perfeição”, o “mito da beleza”, o “antienvelhecimento”, me fez lembrar os contos de fadas. São temas que sempre existiram na sociedade. Hoje recebemos uma enorme avalanche destas informações nas redes sociais que acabam escravizando e vitimizando a muitos, principalmente adolescentes e jovens. O desenvolvimento de uma autoimagem e de uma autoestima positiva é muito importante para a formação da personalidade.
Concordo com a Vânia quando se refere a essência. Que sociedade supérflua, consumista que não valoriza a beleza interior, as virtudes, os valores humanos...

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