SOBRE A IGNORÂNCIA ARTIFICIAL – Eugênio Bucci

Quando alguém tenta imaginar o que seja a ignorância, a primeira imagem que lhe ocorre é o vazio. De fato, enquanto o saber tem para nós o aspecto de casa cheia e feliz, o não saber é seu oposto: um lugar macambúzio, desocupado e triste. O conhecimento lembra uma constelação de fagulhas inspiradoras, como um salão de janelas amplas, ensolaradas, cheio de gente bonita indo de um lado para outro; a estultice é sombra e mutismo, um galpão deserto, escuro, sem ninguém e sem utilidade. O espírito dos sábios cintila em signos vibrantes, representações abstratas e sensibilidade de muitas claves; a massa cinzenta de quem não sabe nada é só um pedaço de carne amorfa, incapaz de qualquer contemplação. Portanto, é com acerto que temos o costume de dizer que as pessoas cultas têm uma vida interior rica e ativa, ao passo que os boçais têm a cabeça oca. Nada mais justo. Nada mais preciso. Nada mais óbvio.

Ocorre que isso mudou drasticamente. As novas tecnologias alteraram em definitivo a textura da ignorância. Ela não é mais o que sempre foi, não mais uma cabeça oca, e já não decorre da escassez de informações e de conhecimento. Na era digital, ela decorre do inverso: o excesso de desinformação, de bugigangas do entretenimento, de quinquilharias imaginárias e de fanatismos virtuais.

Hoje, a ignorância não é uma casa inacabada, desprovida de ideias, mas uma edificação repleta de baboseiras desarticuladas, uma gosma de densidade pesada que ocupa todos os espaços. E é pisca-piscante: revestida de milhões de luzes feéricas, mais ou menos como um cassino em Las Vegas, e lotada de gente robotizada perambulando aleatoriamente, como a Praça dos Três Poderes sendo depredada no dia 08 de janeiro de 2023.

O que temos agora não é mais a ignorância da vacuidade, mas uma outra, a da overdose, a ignorância fabricada por algoritmos gelados e por tentáculos de silício. Estamos falando da ignorância artificial, uma forma densa e totalizante que ocupa e vicia o hospedeiro. Ao contrário do pensamento, que liberta e dá a ver, a ignorância artificial aprisiona e cega. Ela é o insumo de maior valor nas estratégias dos autocratas: entregue de graça para cada indivíduo, custa caro, muito caro, para a sociedade.

Por isso, os ignorantes de hoje não são mais como os de antigamente. Não são como a terra bruta ou a flor inculta, que nunca receberam o toque do jardineiro – foram adestrados pela selvageria e andam carregados até as tampas de preconceitos e de estereótipos, destituídos de imaginação própria. Não são um campo aberto à espera da luz e da letra – são corpos fechados e blindados contra qualquer gota de cultura. A ignorância artificial é a maior epidemia do nosso tempo.

E agora? Existirá cura para tamanha enfermidade? Talvez não. Para entendermos melhor essa resposta, voltemos no tempo. Mais exatamente, recuemos até a Grécia clássica. No Laques, de Platão, o general Nícias, ao tratar do tema da coragem, comenta a hipótese da criança que, por desconhecer o perigo, age com aparente destemor. Nícias argumenta: nesse caso, a ação aparentemente livre de todo medo não traz nada de audácia, é apenas falta de conhecimento. Com esse raciocínio, sugere que a bravura verdadeira requer consciência do risco: para ser valente de fato, o sujeito precisa ter instrução e juízo, precisa saber o que faz. Quanto os idiotas, patriotas ou não, a exemplo das crianças pequenas, jamais estarão à altura da virtude da coragem.

Para a ignorância artificial, porém, o tratamento não tem a menor eficácia. Com sua substância maciça e, ao mesmo tempo, maleável, a ignorância artificial fecha todas as saídas e barra todas as entradas, de tal maneira que para os fanáticos não há educação ou experiência que dê jeito: nenhuma informação de qualidade os alcança; nenhum conhecimento os afeta. Os novos ignorantes foram abduzidos por uma argamassa de obscurantismo luminescente que os impede de saber de si, de perguntar ao outro, de duvidar do que veem, de repensar o mundo. Eles não têm senso de humor. A ignorância da era digital os ocupa feito uma forma de trabalho que não os deixa trabalhar. É uma forma de torpor que não os deixa gozar – e um bordão hipnótico que não os deixa conhecer a si mesmos.

Ao menos no horizonte imediato, não há esperança. Nesses dias de tantas proezas tecnológicas e tantas máquinas miraculosas, não é apenas a inteligência que se tornou artificial, não é somente a intimidade que pode ser confeccionada pelos chips, não é apenas o espírito que pode ser replicado em laboratório. A ignorância também. A ignorância, quem diria, até ela, agora é fabricada pela técnica. 

Eugênio Bucci é jornalista e professor da ECA-USP.

Publicado no jornal O Estado de São Paulo, 13/junho/2024.

Questões para reflexão e elaboração de comentários - relações com outros textos já lidos

1. Ignorância conectada: quando o excesso desinforma

Relação com a 1ª Unidade (O Gato, O Lixo, Continuidade dos Parques)

Reflexão: Se antes discutíamos os efeitos do olhar e da vigilância digital, agora percebemos que somos também moldados pelo excesso de dados irrelevantes. Como distinguir entre informação e conhecimento na era do algoritmo?


2. Torpor digital e o risco do pensamento cativo

Relação com a 2ª Unidade (iNada, Máquina Extraviada)

Reflexão: A ignorância artificial é, segundo Bucci, uma forma de ocupação e aprisionamento. Que relações podemos estabelecer entre os comportamentos descritos na crônica e o consumo acrítico de produtos e ideias discutido nos contos anteriores?


3. A falência da dúvida e a urgência do saber

Relação com a 3ª Unidade  Lilla)

Reflexão: Como cultivar o desejo genuíno de saber em tempos em que a dúvida parece ser desvalorizada? Que papel a educação literária e filosófica pode desempenhar nesse cenário de resistência à verdade?



Comentários

Ezequiel disse…
A ignorãncia nestes tempos não mais significa oco, vazio, nada na cabeça. A ignorância hoje em dia significa uma cabeça cheia baboseiras, asneiras, supérfluos que nada adiciona à existência, vida das pessoas.
Alice disse…
Sim. A ignorância atual é pior do que o antigo vazio, pois é cheia de baboseiras pseudocientíficas e arrogância. Uma gosma impenetrável que não permite considerar outras opiniões.
“Sinal dos tempos” para onde iremos? Qual será a próxima invenção tecnológica? Quais as consequências para a humanidade?
Era do algoritmo em que o conhecimento e o pensamento são desvalorizados e irrelevantes. Como fica a formação das novas gerações?
Alice disse…
Inicialmente pensei no termo Idade das Trevas que foi como aprendi a designar a Idade Média quando frequentava a escola. Hoje o termo é obsoleto e considerado preconceituoso uma vez que houve avanços arquitetônicos, científicos e culturais durante aquele período. Mas a imagem de “trevas” inicialmente utilizado para simbolizar o declínio e estagnação cultural percebido pelos “iluministas” ilustra bem o antigo conceito de ignorância como escuro, vazio, árido enquanto a luz, o movimento e o cultivo e florescimento ilustravam o saber e a cultura.
Vivemos num país de poucos leitores e de inúmeros analfabetos funcionais, porém todos com acesso às mídias sociais. Analfabetos funcionais não conseguem interpretar, analisar e questionar a informação que recebem e por isso mesmo engolem qualquer baboseira que escutam. E o volume de lixo produzido é assustador!!
1. Ignorância conectada: quando o excesso desinforma – sobre esse tópico, o que mais me chamou a atenção no texto de Eugênio Bucci foi ele constatar que toda esse volume de desinformação é gerado e recebido gratuitamente para as pessoas, mas a um custo social demasiadamente elevado.
2. Torpor digital e o risco do pensamento cativo – a forma como as plataformas digitais entregam produtos rápidos e que geram prazer instantâneo automatiza o cérebro a querer desfrutar dessa dopamina sem precisar de muito esforço. Ler e pensar dá trabalho; captar imagens, sons e falas sem profundidade dá uma satisfação imediata que vem viciando os cérebros jovens. O tempo de atenção dos jovens vem diminuindo e eles não sentem mais prazer na leitura. Sabe-se hoje que a leitura estimula a criatividade, a inteligência e a empatia. A leitura aprofundada permite ao cérebro fazer conexões, inferências, relações e, portanto, o volume de informação importa pois, quando o volume é excessivo, acabamos não nos aprofundando na análise da informação. Se não bastasse o volume ser prejudicial, a qualidade do que se tem produzido nas mídias sociais é questionável.
3. A falência da dúvida e a urgência do saber – Costumo dizer aos meus alunos que ter dúvidas é fundamental para o aprendizado, pois significa que eles(elas) refletiram sobre o conteúdo. Não ter dúvidas, ou seja, cristalizar certezas, cria seres arrogantes e impermeáveis aos argumentos, opiniões e evidencias contrárias.
O texto do jornalista Eugênio Bucci retoma questões que discutimos em outros momentos em nosso blog, mas vai além: alerta para as consequências desastrosas da ignorância digital para nossa sociedade.
Kiyu disse…
Achei esse texto mais fácil e direto que o anterior. Me parece que, enquanto no texto do Lilla havia uma reflexão sobre a afirmação de que "todo ser humano quer conhecer e também quer não conhecer", aqui a análise está centrada na qualidade daquilo que conhecemos. Nós recebemos diariamente uma enxurrada de informações, verdadeiras ou falsas, profundas ou superficiais, necessárias ou inúteis. Mas a gente não tem tempo para avaliar, para digerir, para conhecer, para meditar. A mente fica abarrotada de ideias e imagens e a gente se afoga nelas. Às vezes me sinto perdida, porque é difícil separar o joio do trigo. Talvez a solução fosse optar por uma vida mais contemplativa, com menos exposição às mídias digitais. Mas, também acho que é difícil abrir mão dessa facilidade em obter todo tipo de informação. A gente se acostuma com a comodidade...
Kiyu disse…
Muito legal e completa sua análise. Me fez refletir mais.
Marirene Bittencourt disse…
O excesso de “ informação “ que domina nossa sociedade é que Rubem Alves aconselhava a desaprender porque é o que aliena e cria esta cultura superficial e acritica característica de nossa atualidade

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